Coisas que eu odeio e talz / Pseudo-antropologia

Suíte #2: Fogos de artifício / A cabine do sim ou não / Filmes de ação

I.

Esses dias eu estava no conforto do meu lar, tomando o meu chá habitual noturno quando percebo que existia alguma partida de ludopédio (ou futebol, caso queiram) relativamente importante acontecendo. Ao decorrer da porfia, à medida que as cidadelas dos clubes eram ultrapassadas pelo esférico, logo notei a incrível predisposição humana de comemorar seus êxitos através de coisas que façam grande barulho e/ou estardalhaço. Tudo isso me levou ao grande afeto que as pessoas tem por fogos de artifício.

Isso me lembrou, instintivamente, sobre pólvora. Obrigatoriamente, todos os fogos de artifícios contém pólvora. São eles divididos em quatro categorias, que são definidas pela quantidade de pólvora contidas nos explosivos. A quantidade varia muito, a menor categoria tem menos de 20 centigramas da substância e a última chega a mais de 2,5 gramas.

O interessante é que a pólvora foi descoberta pelos antigos alquimistas chineses enquanto eles procuravam pelo elixir da vida eterna. O que é incrivelmente irônico, já que, posteriormente, a pólvora foi usada justamente para tirar a vida das pessoas.

O fato dos chineses terem criado a pólvora, e ela ser utilizada como instrumento principal para a criação e popularização dos fogos de artifício, confirma uma das minhas loucas teorias sobre o comportamento humano.

Povos antigos adoram coisas que brilham.

Na verdade, as pessoas adoram coisas que brilham até hoje, vide o exemplo do diamante. Diamante é uma das coisas mais valiosas do planeta, se não a mais valiosa. É incrível como qualquer coisa que contenha diamante acaba virando de luxo, né?

Eles também gostavam de “penachos bonitos”.

Acho que se colocarem um diamante numa caneta Bic ela acaba virando de luxo, e de quebra vira a caneta preferida do Roberto Justus.

Mas coisas coloridas sempre impressionaram muito os povos antigos. Lembro-me do caso dos povos da América Central que trocavam suas terras por coisas chamativas como os chapéus dos espanhóis conquistadores.

II.

Meio que parece com aquele programa que a Eliana fazia quando ela era apresentava programas infantis, a “Cabine do Sim ou Não”, onde crianças eram fechadas em cabines à prova de som para correr o risco de ganhar brinquedos incrivelmente fodas. O jogo era movido por perguntas da loira, que indagava repetidamente se a criança ali aprisionada gostaria de trocar o que ela já tinha (caso tenha ganho alguma coisa) por algo inversamente proporcional à importância do brinquedo. Assim, uma bicicleta (prêmio maior na época, pra você ver a simplicidade) era ou não trocada por um espelho bastante tosco, enquanto um pente fodido seria oferecido em troca de uma boneca Suzy.

Acabei descobrindo que o Celso Portiolli andou fazendo isso uns tempos atrás no seu Domingo Legal. Vocês não sabem o quão difícil foi achar essa imagemzinha.

Regras fundamentais da Cabine do Sim ou Não

  1. Os fones e a cabine devem funcionar de forma que a pessoas que esteja lá dentro não ouça ABSOLUTAMENTE NADA, mesmo que o ambiente sonoro de -126dB cause sérios riscos à audição do infantil;
  2. A cabine era à prova de som, o que tornava o fone inútil, isso não é uma regra, mas enfim;
  3. A partir do momento que a SUPREMA LUZ VERMELHA acender a resposta deverá ser dada;
  4. A resposta será apenas “SIM” ou “NÃO” e qualquer manifestação que exceda a isso será terminantemente ignorada;
  5. O participante deverá gritar, mesmo que sua voz seja perfeitamente inteligível a qualquer tom do lado de fora da Cabine;
  6. A SUPREMA LUZ VERMELHA é indiscutível e sua manifestação é a tradução da vontade de Sua Santidade dos Programas Infantis, o Primeiro e Único SILVIO SANTOS;
  7. Uma vez terminado o quadro, NÃO HÁ DISCUSSÕES SOBRE SEU RESULTADO, mesmo que você tenha ganhado apenas um pote de Amoeba.

~~FOUDASSE~~

Realmente era o mais próximo de um jogo de azar que uma criança de cinco anos poderia chegar perto naquela época. Hoje em dia essa porra tá toda descambada.

O que isso tem a ver com os povos antigos que sucumbiram aos conquistadores? Ora, perceba comigo que a “conquista” do território brasileiro dos portugueses sobre os índios foi algo meio que como a Cabine do Sim ou Não do século XVI!

-Capiaus babacas, vocês querem trocar esses milhões de quilômetros de floresta intocada, milhares de espécies de animais, infinitas riquezas de toda a sorte por esse monte de espelhos velhos e ferramentas que a gente não usa mais??

~~Acende-se a SUPREMA LUZ VERMELHA~~

-SIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIMMMMMMMMMMMM!!!!!!!!, responderam os nativos tupiniquins.

-AEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE

~~Todos felizes para sempre~~

Foi mais ou menos isso aí mesmo.

Favor não confundir com o Bandido da Luz Vermelha.

III.

Esses dias eu estava refletindo com um amigo meu no Twitter sobre o quão toscos filmes de ação podem ser. Primeiro que, as interpretações são piores que de filme pornô. Assim como a Gretchen só consegue fazer papel de Gretchen, Steven Seagal só consegue fazer papel de Steven Seagal.

todo mundo já viu isso né rsrsrsrrs

Steven Seagal, Chuck Norris, Jet Li, Kristen Stewart, o resto do elenco do Crepúsculo, Silvia Saint (não procurem quem é no Google) e outros mártires da interpretação mundial abdicam de suas obrigações atuativas para que o foco se mantenha no propósito principal do filme. No caso dos filmes de ação, que se danem as histórias, o principal são as cenas de luta; no caso do Crepúsculo, o principal é ser um filme ruim mesmo, por que quanto pior melhor pra esse público; no caso da Silvia Saint deixa quieto.

Outra coisa legal dos filmes de ação são os títulos. Um filme de ação deve ter, obrigatoriamente, pelo menos uma dessas palavras:

  • vingança;
  • explosivo;
  • lei;
  • matar, morte e relacionados;
  • selvagem;
  • nomes de lugares também são conceituados, como “Vingança em Paris”, “Explosões em Tóquio”; “Corrida Mortal em Santo Antônio do Cré-Cré-Cré do Xipsuí de Minas”, e por aí vai.

Muito bem, partindo disto, vamos aos elementos recorrentes: como dito anteriormente, o principal propósito do filme é mostrar a habilidade do personagem principal em lutas, portanto quando se diz de roteiro, não é preciso se esforçar muito.

Primeiro: sempre tem a história do cara que é policial, daí ele tem uma mulher gostosa (que deve trair o cara a rodo) e um filho, mas ele nunca está em casa por que O BRAÇO DA LEI NUNCA DESCANSA. Tem uma variante também da mesma família que fica chateada por ter que mudar o tempo todo, o que é mais comum em filmes de agente secreto. Mas o plot principal dos filmes de ação é quando o/a filhinho/a do cara vai fazer alguma coisa na escola, como um recital de piano ou um teatro infantil (coisa bem de americano mesmo) e aí o cara não pode ir por que tem um terrível bandido à solta na comunidade.

Ora, fosse eu um profissional da lei como esse, e tivesse eu que escolher entre correr o risco de morrer numa perseguição policial implacável e ver um recital de piano ou um teatro infantil, eu obviamente escolheria correr o risco de morrer na operação policial. Todo mundo sabe que teatro infantil é horrível.

Outra coisa muito recorrente é o sequestro da filha do presidente. Aí acontece o seguinte: o cara é o agente mais foda da CIA, FBI, Interpol, The Police, sei lá, e está a beira de se aposentar, ou já aposentado, e aí a CIA, FBI, Interpol, The Police, The Beatles, sei lá, chama ele pra um último trabalho.

O roteiro mais repetido, principalmente nos filmes do Charles Bronson, é daquele policial que alguém da família sofreu alguma coisa na mão dos bandidos (normalmente a filha/mulher do cara são estupradas/sodomizadas, o que mostra também uma cena bastante vergonhosa e mal-feita de sexo forçado), daí ele não pode solucionar o caso pela polícia por que ele tem ligações com o caso, e por aí vai. O Charles Bronson então, vai lá e faz justiça com as próprias mãos, matando e/ou invalidando os membros dos fidocapiroto que fizeram isso com a coitada da garota.

Sempre tem também o caso do cara que é policial e, quando ele vai resolver um caso muito difícil, lhe é oferecido um “parceiro”, que é aquele cara que fica do lado do policial mais experiente, que tem que aprender, e normalmente se ferra justamente por ser menos experiente. O policial fodelão sabiamente recusa o parceiro, que fica jururu. Há quanto tempo você não lia essa palavra, hein?

Sem falar na Guerra do Vietnã, que foi aquela guerra que os EUA perderam e eles nem sabem o que aconteceu até hoje. Pra você ter uma ideia, os EUA perderem uma guerra pro Vietnã, naquele tempo, era mais ou menos como se Davi vencesse Golias com a mão quebrada e se Golias tivesse uma armadura tipo Homem de Ferro. Daí, nos filmes, tipo Rambo, Chuck Norris, e por aí vai, ele sempre sai matando os pobres vietcongues com seu canivete apropriadamente chamado de Isolda.

É meio que igual aquele pessoal que faz montagem abraçando personagem de anime por que não consegue pegar mulher na vida real.

Ok, legal, acredito em você agora.

Uma coisa interessante dos filmes de ação são aquelas explosões que costumam permear o filme. Como elas normalmente são muito caras de se fazer e também pra encher um pouco de tempo, afinal de contas, encher 120 minutos de filme com porrada é bastante complicado, eles começam a repetir a explosão várias vezes seguidas de vários ângulos diferentes pra justificar a quantidade de dinheiro que eles gastaram naquele pobre galpão.

Outra coisa que explode bastante é helicóptero.

Aqui vai a dica: a qualidade de um filme é medida pela quantidade de helicópteros explodidos.

Quanto mais, pior.

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