Coisas que eu odeio e talz/Pseudo-antropologia

Stream of consciousness

Os chatos estão tomando conta das nossas vidas. Pessoas desconhecidas são chatas, parentes estão chatos, no trabalho ou na escola tem gente chata, enfim, eles vão tomar conta do planeta. E digo isso porque eles já tomam conta de um espaço bem menor. O ônibus.

Ônibus é um dos redutos de pessoas chatas. Eu estava fazendo as contas um tempo atrás, e fiz uma estimativa que eu já andei aproximadamente 3.000 vezes de ônibus na vida. Portanto, é incontestável o meu conhecimento no assunto. Se você andasse o mesmo tempo de ônibus que eu andei sem paradas, você viajaria dois meses diretos. 62 dias da minha vida eu gastei dentro de ônibus. E olha que eu nem trabalho em um. Exceto uma vez que eu precisei vender a minha irmã numa viagem pra Montevidéu, mas isso não conta.

Ó o tipo do busão.

Aliás, vendedor de ônibus é chato demais. Em 80% das vezes, ele vende aquelas balas de goma. Pra começar aquilo nem é uma bala, é um torrão de borracha com um quilo de açúcar por cima. E o jeito que ele vende aquilo é impressionante, porque, veja, ele dá um pacotinho daquilo pra cada um, e aí você pensa: “ganhei um pacote de jujuba”. Não! Se quiser ficar com ele, vai ter que pagar.

Imagina você sendo um diabético e recebendo um negócio desses na sua mão. Porque que ele não pergunta primeiro quem quer jujuba? Aí quem quer responde! Vai que eu seja diabético, não coma açúcar há três anos, sem nenhuma recaída, e um filho da mãe desses me dá uma jujuba. E se eu não controlar a minha vontade, acabar comprando e comendo uma e morrer, hein? E aí?

Outro chato que age bastante no ônibus é o chato do celular. O cara é terrível. Presta atenção como funciona. Ele tira o celular dele, (ás vezes eu fico pensando como um cara tão chato consegue ter um celular tão bom, mas deixa isso pra lá) aí, ele liga o mp3 do desgraçado. Pro ônibus inteiro ouvir. O que é que ele quer com isso? Que todo mundo comece a dançar funk no meio do ônibus? Isso é ridículo. Mas aí você me fala: ah, eu gosto de funk. Mas o chato do celular tem uma regra. Ele nunca tem o mesmo gosto musical que você.

Eu, que gosto de um bom rock clássico, encontro com o chato do celular no celular no ônibus e ele está ouvindo axé. O fã de axé entra no ônibus e o chato está ouvido pagode. O pagodeiro entra no ônibus e tem um rapper com o celular. O rapper entra no ônibus e tem alguém ouvindo Mozart, Chopin, ou Beethoven no celular. Aliás, o dia que tocar música clássica no ônibus eu vou dar um jeito de pegar mais ônibus do que eu já pego. Ou vai acabar o mundo, sei lá.

Divinha que que esse cara gosta. Divinha.

O chato do celular não conhece o significado de três palavras: aí você pode pensar que elas são ”respeito”, “consideração”, “elegância”… Não. As palavras são “fones”, ”de”, “ouvido”. Usar o mp3 alto no ônibus tem o mesmo sentido de sei lá, usar um banheiro público, fazer suas necessidades nele, e ficar na porta do banheiro convidando as pessoas que passam pra dar uma olhada no que você fez.

Moral da história: você não precisa compartilhar a merda que você gosta pros outros.

Tão chato quanto isso é aquele cara que pensa que só por que você sentou do lado dele você precisa necessariamente conversar. Normalmente, quando eu ando de ônibus sozinho eu uso fones de ouvido. E aquelas três palavras – “fones”, ”de” e ”ouvido”, significam mais três palavras: “não”, “fale”, ”comigo”. Mas mesmo assim ele fala. Aí ele começa a te perguntar: onde mora, pra onde você está indo, etc., etc., etc.

Aí você fala onde você mora e aí ele fica: ah, conhece fulano? Ele mora lá, ele é filho do cunhado do irmão de um conhecido de um vendedor de pipoca que conhece um cara que já vendeu um carro pro primo do meu irmão. Cara, eu não tenho obrigação de conhecer todo mundo que mora no meu bairro! O pior é quando você está indo pra escola e o cara do seu lado pergunta: indo pra escola? Mas é claro que não. Você acha? Eu sou prostituto, e isso aqui é fantasia, cliente adora uma fantasia, sabe como é.

Taí outro cara que gosta de um uniforme de estudante.

Outra coisa que eu não gosto no ônibus é velho. Antes de me chamar de insensível e dizer que eu vou ficar velho também, existem dois tipos de pessoas acima de 50 anos dentro do ônibus. Os idosos, que merecem o meu respeito, e os velhos, que às vezes nem sempre são tão velhos, e nem sempre merecem respeito. O idoso, você percebe que ele realmente precisa do lugar e ele fica na dele, esperando alguma alma caridosa se lembrar que ele tem preferência. Ele é o idoso, o que eu respeito. Agora, tem o velho. O velho, que normalmente tem de 50 a59 anos e acha que merece tratamento igual ao idoso só porque está acabado, fica te enchendo o saco por que ele quer o seu lugar, e só o seu lugar, mesmo quando existem dezenas de outros lugares disponíveis. E o pior, senta, e fica falando no teu ouvido o tempo todo. Esses são chatos.

Mas não é só no ônibus que os chatos agem. No trabalho ou na escola, os chatos também reinam. Aqueles que só querem conversar contigo na hora errada, quem te procura só pra pedir alguma coisa, ou aqueles que gostam daquelas brincadeiras sem-graça. Eu fico imaginando o chato planejando como é que ele vai fazer a idiotice dele.

Ele pensa: ó, eu vou chegar nele sorrateiramente enquanto ele estiver distraído, cutucar num ombro, e aí vou pro outro lado, ele vai olhar onde eu cutuquei e não vai ter ninguém! Incrível! O cara que planeja isso devia ganhar um Nobel.

Outra coisa que eu não vejo sentido e as pessoas fazem é aquele negócio de chegar atrás de você, cobrir seus olhos e perguntar: “Quem ééééééé?”. Eu odeio isso. Em minha opinião só não é chato quando é a sua namorada que faz. Mas o risco de você errar o nome dela ainda não vale a pena. Aliás, quando você erra é que a coisa fica feia. Parece que você é obrigado a saber quem são as pessoas pela textura da mão no seu rosto. Você acha que eu tenho o quê, leitor de digital na cara?

Outro pessoal que pode ser bem chato é a sua própria família. Eu digo isso porque todas as famílias têm um tio chato. Aposto que você se lembrou dele agora. Quando você tem, na média, dez tios em cada lado da família, que nem eu, meu amigo, o chato não falta. Teve uma vez que um tio meu que eu não via desde que eu era muito pequeno ligou na minha casa. Aí ele me pergunta: adivinha quem é que está falando? Pura sacanagem. Respondi: “ah, sei lá”. Ele insistiu. Aí eu comecei a falar os nomes de todos os tios que eu conhecia pra ver se eu acertava o nome do desgraçado. Fui tentando: “tio Leleco?” “Não.” “Tio Manu?” “Não.” “Tio Nicola, talvez?” “Não.” Foi indo até que ele me falou o nome dele. Na hora, tratei de ligar o nome à pessoa. Anotei: “tio Paulão – chato”.

Tiozão encontrado em seu habitat natural.

Gente chata é um grande problema da sociedade hoje, e dá raiva dessa gente. Muita raiva. Por isso, ás vezes eu fico planejando vinganças pra esse povinho. Não que eu seja vingativo, não. Mas sei lá, que dá vontade de matar ou fazer coisa pior, dá. Eu até vou contar uma dessas vinganças que eu planejei. Não, não, não precisa se assustar. Eu só pretendo fazer isso em situações muito extremas.

É assim: eu vou chegar nele sorrateiramente enquanto ele estiver distraído, presta atenção. Aí eu vou cutucar num ombro, na hora, eu passo pro outro lado, ele vai olhar onde eu cutuquei e não vai ter ninguém! Incrível!

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